domingo, 25 de setembro de 2016

Prêt-à-porter: homens e carros sintonizados

Compre um carro, que lhe vista bem. Esse foi o conselho de um paquera, mais que amigo, quando conversávamos sobre carros. Desde então, cheguei à conclusão: procure um amor que lhe caia bem, com bom acabamento, independente da conta bancária. Assim como há tecidos nobres, carros também funcionam assim. Nem sempre o melhor vestido é o mais caro. Há vestidos, um tanto quanto baratos, que podem provocar o mesmo frisson de um modelo grifado.

Falando de carros e tecidos, há um universo a ser explorado: os populares, os ordinários, os bonitos, os confortáveis e os tops de linha. Em qualquer categoria, há sempre um pronto para deixar você de bem com a vida. Ao escolher um carro, procuro sempre aliar três itens de série: design, conforto e economia. Depois de equacionar essas três variáveis, meu fiel companheiro é um modelo francês, que despenteia os meus cabelos pelas curvas da cidade.

Ao pensar em carros, é inevitável associá-los aos homens. Talvez, "a máquina" seja o símbolo máximo do status masculino. A neurociência e a psicologia podem explicar esse fascínio absoluto que o automóvel exerce sobre 10 a cada 11 homens. Você não leu errado, é exatamente assim. Só aquele 10% não se liga nos motores e nas potências dos cavalos. 

Quando for escolher um novo amor, lembre do homem prêt-à-porter. Aquele que está pronto para você, que não precisa de amores parcelados nem de garantias para ser levado. Pouco importa se o modelo é novo ou usado. Se a companhia lhe cair bem, nem olhe para o lado. Segure na mão e desligue o piloto automático. Só não esqueça de dosar o limite de velocidade para não acelerar ou frear demais o relacionamento.

Mulheres pós-modernas: solteiras aos 35

Em 1922, a Semana de Arte Moderna revolucionou os alicerces da cultura brasileira. Ao romper com os padrões até então vigentes, os artistas trouxeram à tona novas manifestações. Quase cem anos depois, a sociedade brasileira assiste ao espetáculo das mulheres pós-modernas. Aquelas, que aos 35 anos, não casaram nem tiveram filhos. Ainda. Mas há muito tempo já procriaram em seus habitats profissionais com muito sucesso. Já construíram uma carreira sustentável, já colecionaram flores de amores passados, já escreveram um roteiro particular.

Não interessa a ninguém se você não conseguiu casar com Fábio, Bruno, com o francês ou com Francisco. Secretamente, essa minoria de mulheres vai sendo alvo de comentários velados nos ambientes de trabalho ou na família. Garanto que qualquer uma delas não tem a menor vontade de fazer apologia à vitimização, como fazem as outras minorias com suas bandeiras alheias. Elas não querem lutar por igualdade com as mulheres casadas; querem apenas ser respeitadas em suas escolhas. Muitas querem subir ao altar com um marido interessante e protagonizar comercial de margarina. Esse é o script que escrevi para mim, mas ainda não consegui realizar. Outras preferem sorver toda a sua independência em viagens pelo mundo, em festas incríveis, com parceiros de uma noite. E daí?

Em tempos de direitos humanos, qualquer mulher merece ser tratada da mesma forma. Fala-se muito em homem machista, mas muitas mulheres mantêm discursos com doses de machismo. São aquelas que condenam as semelhantes solteiras, classificando-as com alguns rótulos: deve ser bipolar, deve ser mal amada, deve ser santinha, deve ser puta... Pode ser simplesmente uma mulher com todas as suas idiossincrasias, que apenas não encontrou o seu homem prêt-à-porter. Por enquanto, caminha sozinha. Em breve, um par pode ser o seu lar.


sábado, 24 de setembro de 2016

Voyeurbook

É sempre bom dar uma espiadinha: de manhã, à tarde e à noite. Esse é o lema dos usuários, ou melhor, consumidores das redes sociais. Particularmente, o facebook arrasta uma legião na casa dos milhares de milhões em todo o mundo. Seu objetivo é simples: encurtar as distâncias, derrubar as fronteiras e facilitar a comunicação entre amigos, colegas, parentes, fãs e ídolos. Apesar de parecer algo saudável e positivo, o uso do facebook pode resvalar num voyeurismo explícito.

Pessoas passam a vigiar cada postagem, foto e clique alheio para verificar o que o vizinho está curtindo por aqui e acolá. A partir de então, cria-se uma multidão de dependentes e guardiães da vida alheia. Poder-se-ia supor que o próprio usuário pode coordenar os movimentos de conectar e desligar do mundo pré-fabricado na aldeia chamada facebook. Ocorre que, muitas vezes, as pessoas são acometidas por uma vontade incontrolável de espiar e delimitar cada perímetro do mundo do outro. Por meio do arsenal de informação disponibilizado, qualquer internauta com acesso à rede está apto a desenvolver uma (inter)dependência.

Alguns postam para se autoafirmarem nos quesitos subjetivos: beleza, magreza, inteligência e por aí afora. Outros para divulgar e, às vezes, ostentar casas, carros, pratos, viagens e bens materiais, Eu (mulher) posto para você medir o quanto eu sou bonita, magra, bem relacionada e por aí afora. Você (homem) posta para parecer  que é popular, interessante, alto, gostoso, rico. Juntos, vamos simulando personas ideais para conviver num mundo real. Aliados, vamos criando redomas insustentáveis de felicidade para impressionar o outro. E por que não despertar a inveja? Com isso, eu passo a desejar o que você tem e vice-versa. Nesse conchavo, o círculo vicioso de um sintoma clássico é retroalimentado: o voyeurismo.

Esqueça o cara a cara. O face já era. Movido por uma sede de experiências, torna-se mais simples e acessível sucumbir ao puro voyeurismo. Então, saímos da era facebook e adentramos o voyeurbook com todas as suas matizes possíveis. A atração fatal pelas redes sociais pode ser minimizada com períodos de abstinência. Basta experimentar alguns dias sem acessar a rede, que logo vem um e-mail para lembrar que você tem cinco cutucadas, quatro mensagens, oito convites e três solicitações de amizade. Tudo para alimentar a curiosidade até daquele abstêmio, que tenta ficar longe da rede. Só por hoje.

Sobre chefes, porteiros e líderes

Todo mundo tem ou conhece um porteiro. É aquele que controla quem entra e sai, quando, como e com quem vai. Há, também, os chefes que se encaixam nessa categoria. São aqueles que vigiam de perto o horário de seus subordinados, com quem falam, sobre o que falam e cronometram cada atitude e tarefa de seus mandados. Tal qual cães farejadores, esses chefes (incompetentes) precisam se escorar no "poder de porteiro" para vigiar cada passo de seus funcionários. São os guardiães da vida alheia, pois lhes sobra tempo ocioso para ser preenchido com atividades nada laborais. Resta-lhes barrar o sucesso de sua equipe por medo, insegurança ou teimosia.

Em contrapartida, os líderes são aqueles que inspiram confiança, transpiram competência e são verdadeiros exemplos para seus seguidores. Sai a figura do subordinado, porque só pessoas admiráveis têm vocação para serem seguidas. Normalmente, os líderes são exigentes e têm personalidade forte. Eles focam na gestão de pessoas, ao invés de perseguir passos (poder de porteiro). Na portaria, na empresa e na vida, há espaço para bons profissionais, que fazem a diferença com seu modelo de virtude. Seria fantástico se o mundo corporativo criasse uma agência reguladora para qualificar os bons chefes (líderes) com ISO 9000. Enquanto isso não acontece, o próprio mercado vai descartando os "chefes porteiros", que só tem aptidão para vigiar passos.